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Semiótica

Vamos começar com uma simples definição, pois o assunto não está, nem pelo nome, longe de complexidade. Semiótica é a teoria dos signos, que são elementos do processo de comunicação espalhados em diferentes contextos pelos vários aspectos do conhecimento humano. Sua origem é antiga, vem da palavra grega semeiotikos, o intérprete dos signos. Como podemos ver, a importância dos signos vem de muitos anos, quando os gregos costumavam interpretar eventos naturais, como a temperatura, como elementos de intervenção dos deuses no futuro das espécies, e até hoje continua extremamente relevante para a comunicação humana em todas as suas formas de expressão.

Signos podem ser qualquer coisa, estão em todos os lugares e são incrivelmente diversos. Para darmos um exemplo rápido, a pintura de fundo¹ do Oticrature, semáforos, romances, filmes e cardápios são considerados signos, e é importante para nós compreendermos o que significam, pois eles são veículos de mensagens e estão tentando nos comunicar algo. Se utilizarmos o semáforo como um objeto básico de análise, seu significado é óbvio para os seres humanos por conta de nosso conhecimento sobre dirigir e caminhar na rua. Desde a nossa infância, aprendemos o que as cores do semáforo representam: o verde quer dizer SIGA EM FRENTE; o amarelo PROSSIGA COM ATENÇÃO e o vermelho PARE. Portanto, no momento em que decidimos tirar nossa carta de motorista já devemos saber o que as cores do semáforo representam. É óbvio que devemos saber disso para que possamos nos manter fora de perigo no cenário do trânsito, assim como as pessoas ao nosso redor. Neste sentido, o semáforo é um aspecto do conhecimento humano que possui um sentido universal.

Parece muito fácil entender as representações diversas e o significado dos signos, mas, embora alguns deles sejam internacionalmente reconhecidos, como aquele que acabamos de discutir, outros são apenas compreendidos dentro de um grupo ou contexto particular. É aí que se encontra o nosso interesse de estudo.

Depois de todas estas considerações, devemos seguir adiante para o nosso objetivo, ou seja, rumo àquele tipo de signo que irá “quebrar nossas cabeças”, que nos fará questionar por que os signos não são todos fáceis, como aquele do semáforo. Bem, nós veremos que, embora “quebrar cabeças” em um sentido literal não é legal, o “quebrar cabeças” no sentido não literal é muito divertido.

Existem várias teorias da semiótica que estudam diferentes tipos de signos em diferentes estruturas de significação, como as artes visuais e a linguística. Nós iremos, no entanto, selecionar apenas uma, que está entre a dos textos: a literária, que também inclui a poesia, o drama e a narrativa. Como todas as semióticas, a literária tem raiz na linguística, e, até certo ponto, nós discutiremos alguns elementos da linguística relacionadas a alguns aspectos da semiótica literária. No entanto, não nos delongaremos discutindo linguística, pois esta está dentre um vasto campo de estudo. O propósito desta introdução é fazer com que a compreensão da semiótica literária seja clara, afim de que possamos aplica-la facilmente em nossas análises.

Já dissemos que um signo tem um significante e um significado. Enquanto o primeiro é “algo” que carrega um sentido, o segundo é o significado que aquele “algo” exprime. De uma forma mais simples:

Significante + Significado = Signo.

Semáforo é um significante e o significado dele (nos manter longe do perigo do trânsito) é o significado.

É importante para nós a compreensão da dicotomia significante e significado – dois elementos da linguística – pois utilizaremos estes termos enquanto discutirmos semiótica literária.

Signos podem ser moldados, comunicados e compreendidos de diferentes formas. Na semiótica literária, o canal transmissor de sentido é o livro. Para entendermos a mensagem que este transmite, precisamos conhecer sua estrutura, que é textual. Assim, poderemos discutir seus sentidos quanto à forma (literal, analógica, metafórica), às fontes (cultural), ao contexto (história…) e aos seus tipos (cognitivo ou não cognitivo). Se passarmos por todos estes elementos, teremos mais chances de adquirir uma maior compreensão do significante. É por isso que, em análise literária, tentamos extrair o máximo de informações sobre a obra através do momento histórico em que está inserida, quem a escreveu e quais foram as influências do autor em vida, os movimentos artísticos em voga, assim como quaisquer outros elementos que poderão contribuir em um melhor entendimento do significante em destaque.

Uma obra literária tem elementos da estória, que podem estar inseridos tanto em uma estrutura de superfície – ou seja, seu significado é claro para o leitor: personagens, temas, enredo, gênero, estilo e assim por diante – quanto em uma estrutura profunda – ou seja, seu significado pode não ser assim tão claro. Estes elementos são importantes em nossas análises de forma que a estrutura de superfície nos ajudará a entender a estrutura mais profunda. A diferença entre um livro de massa e uma obra literária é que, enquanto o primeiro não precisa ser analisado porque o narrador já fornece todos os elementos necessários para que o leitor siga as sequências de ações sem complicações, o segundo lhes fornece algumas dicas durante narração como peças de um quebra-cabeça, em que o leitor deve coletá-las, analisa-las e coloca-las em ordem lógica para, então, refletir e compreender a mensagem nela transmitida.

HALL aponta o seguinte:

[…] The deep structure is important because by accessing it we can reveal the underlying meaning and importance of what is being told to us. For instance, the deep structure might be there to persuade the reader of the value of (or, in some cases, to question the value of) such things as traditional values, dominant political ideologies, prevailing ethical systems, preferred social attitudes, established cultural norms, current forms of knowledge, and existing institutional practices. For example, it might be argued that, while Jane Austen wishes to defend certain traditional ideas about romantic love in Pride and Prejudice, Gustave Flaubert seeks to challenge them in Madame Bovary (2012, p. 12-13).

Há vários estudos sobre a semiótica textual, entre elas o estruturalismo. Para a nossa primeira análise, aplicaremos o estruturalismo de Vladimir Propp de sua Morfologia do Conto Maravilhoso, em que ele analisa contos populares russos e identifica temas comuns entre eles. A primeira obra que analisaremos será Macunaíma, romance brasileiro do autor Mário de Andrade. Tentaremos, então, observar de que forma a estrutura de Macunaíma está próxima daquela do conto popular e qual é sua mensagem para o leitor.

Nós discutimos algumas ideias sobre semiótica, que são pequenos fragmentos de informações dentro de seu vasto campo de estudo. Mas o mais importante de tudo é saber que a semiótica, como instrumento de análise, nos ajudará a adquirir nossa própria perspectiva sobre o significado da obra. Há vários estudos sobre Orgulho e Preconceito, por exemplo, mas cada um carrega seu próprio ponto de vista através dos elementos de significação já discutidos. Então, vamos nos preparar para nossa primeira leitura: Macunaíma, de Mário de Andrade. Vamos mergulhar nesta aventura juntos!

Prazo da leitura: 22 de julho.

Nossa próxima discussão será acerca da literatura, sua definição e importância. Você poderia nos dizer em que sentido a literatura tem um papel importante em sua vida?

Notas:

  1. A Leitura, by Almeida Junior, 1892.

Bibliografia:

Barthes, Roland. (1964). Elements of Semiology. Hill and Wang: New York.

Cobley, Paul & Jansz, Litza. (2004). Introducing Semiotics. Icon Books: US.

Hall, Sean. (2012). This Means This, This Means That: A User’s Guide to Semiotics. London: Laurence Ling.

Nöth, Winfried. (1990). Handbook of Semiotics. Indiana University Press: Bloomington and Indianapolis.