Literatura – Parte 1

Definição

Quem é você em um museu de arte? Aquele que possui grande conhecimento acerca das obras artísticas nele em exibição ou aquele que nada sabe sobre elas? Se você é O primeiro, terá mais chances de apreciar o que está vendo e não se apressará ao analisar cada pedacinho da obra de forma que possa ter sua própria experiência de interpretação. Dessa forma, poderá fazer uma viagem, e a obra será toda sua, com uma mensagem especialmente feita para você. Ao mesmo tempo, pensará nos dados biográficos do artista enquanto vivo e o período histórico que se insere, e até mesmo quererá saber mais informações para preencher os pedaços incompletos de dados que você deve ter armazenados em seu cérebro. Se você é o segundo, no entanto, a experiência não será a mesma daquele camarada que chamamos anteriormente de “O primeiro”. Não se preocupe, nem tudo está perdido para você SE realmente quiser apreciar o que vê, uma vez que a arte é para todos a apreciarem da maneira que quiserem para que, ao final, haja satisfação.

O mesmo acontece com a literatura, que é outra forma de expressão artística. Se você ler uma obra literária, mas não entender seu significado, não se assuste. Quando um autor escreve uma estória que não é fácil de compreender, ele não está tentando ser chato, mas sim criar arte. E o bom lado disso tudo é que, uma vez que a estória foi publicada, ela não é mais sua “criança”. Qualquer pessoa pode lê-la e toma-la da forma que quiser. Nós temos permissão para gostar, desgostar e de dar mensagem a ela através de nossa leitura. Se você ler Metamorfose de Kafka e quer dizer que a personagem principal se transforma em uma barata, você pode fazer isso. Mesmo que estivesse vivo, Kafka não teria o direito de reclamar. Se o que você lê é uma boa obra literária, você deveria lê-la mais de uma vez, pois, acredite, você terá uma nova estória a cada leitura. Lembre-se, o objetivo principal de Oticrature é dar todo o suporte necessário para os leitores interessados apreciarem uma boa leitura, então mesmo que você seja o segundo camarada no museu de arte, você ainda pode gostar do que lê com alguma ajuda.

Nós falamos um pouco sobre pessoas no museu de arte e outras coisas mais, mas nós ainda temos de responder uma questão que provavelmente está saltando de sua cabeça. O que significa literatura? Bem, vamos começar com uma definição de dicionário:

Li.te.ra.tu.ra

  1. Livros, peças de teatro, poemas etc que pessoas pensar ser importantes e boas: Ele tem lido muitas das obras literárias mais importantes. | Literatura italiana.
  2. Todos os livros, artigos etc sobre um determinado assunto: literatura sobre a história da ciência | na literatura. Vários casos de envenenamento por mercúrio foram registrados na literatura.
  3. Informação impressa produzida por pessoas que querem lhe vender algo ou lhe falar sobre algo: literatura de vendas. (Quirk, 2006, tradução nossa)

 

Está claro, portanto, que estamos nos referindo à primeira definição: livros, peças de teatro, poemas, etc., que pessoas pensam ser importantes e bons. No entanto, quem são estas pessoas que pensam que alguns livros, peças de teatro, poemas, etc., são importantes e bons? E por que eles são importantes e bons? E por que esta definição é tão genérica? Bem, não podemos responder à última, mas continue lendo, pois iremos responder às outras.

Vamos supor que um amigo seu te diga “Acabei de ler um romance lindo. É tão incrível! Você deve lê-lo”. Qual é o ponto de vista de seu amigo acerca do romance? Que é importante – “Você deve lê-lo” – e bom – “É tão incrível!”. De acordo com aquela primeira definição do dicionário, o livro que seu amigo leu é uma obra literária, certo? Você segue em frente com a discussão e pergunta ao seu amigo que livro é este e ele diz “É Um Amor para Recordar, de Nicholas Sparks”. Agora, este romance é ou não é literatura?

A resposta é não, mas isso nada tem a ver com o fato de o romance ser bom ou não – “bom” é uma questão de opinião, ou seja, é muito subjetivo. O motivo é que Um Amor para Recordar não tem literariedade, que é elemento dominante em uma obra literária.

Definir o significado de literatura, como percebemos, não é tarefa fácil. Muitas pessoas já tentaram, alguns dicionários não têm elementos suficientes para descrevê-la, e estes são provavelmente os motivos pelos quais muitas pessoas se confundem a este respeito.

De acordo com o que já discutimos até agora, podemos deduzir que literatura:

  1. é uma arte;
  2. é composta de palavras, ou seja, sua estrutura é textual;
  3. tem literariedade como elemento dominante.

Arte vem da palavra em latim artem, que significa trabalho artístico, habilidades práticas, atividade comercial, profissão. Aristóteles dizia que a arte imita a vida. Bergson e Proust a via como a exacerbação da condição irregular inerente na realidade. Nós sabemos, no entanto, que é uma criação de qualquer tipo (filmes, pinturas, esculturas, música…) produzida pela imaginação humana e que tem a ver com a experiência de vida, pois é uma expressão e interpretação do mundo que nos rodeia. O artista tem habilidades, ou seja, princípios estéticos, que o ajudarão a expressar a beleza de sua criação em sua totalidade. Para alcançar estes princípios estéticos, o artista deve conhecer seu material de trabalho, que pode ser as cores (ex. para pinturas), palavras (ex. para literatura), imagens (ex. para filmes), sons (ex. para música) e muito mais, a fim de que as potencialidades de todos estes instrumentos possam ser extraídas e usadas de forma atrativa e, assim, criar a arte. Uma obra de arte tem mais do que um significado comum e pretende impactar a emoção das pessoas através da combinação de elementos de forma simples ou complexa.

Literatura é a arte feita através de palavras. O autor que a cria sabe o que pode ser feito com o seu instrumento de trabalho e o que pode ser resultado dele: rimas podem trazer musicalidade a um poema, metáforas podem expressar emoções implícitas… O resultado da “lapidação” da palavra são os princípios estéticos do artista, que trazem para a arte um toque especial. Vamos utilizar este lindo soneto de Luís Vaz de Camões, um dos autores clássicos mais importantes de Portugal, como exemplo:

Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?¹

O que é o amor? Qualquer pessoa pode tentar responder a esta pergunta, mas não será tarefa fácil. Camões, neste soneto, está tentando fazê-lo, e utiliza-se de muitas metáforas para explicar o que não tem explicação exata. O amor queima como o fogo, nos faz sofrer, ao mesmo tempo em que nos trás alegria.

Finalmente, devemos dizer que o element mais importante de uma obra literária é a sua literariedade. Sobre isso, diz Nöth:

Através de uma perspectiva pragmática, literariedade é analisada com referência à intenção do autor e à forma de interpretação do texto feita pelo leitor. […] Portanto, o texto literário é polifuncional e permite referência a vários contextos extratextuais. […] Uma caracterização positiva da pragmática literária é dada por Segre: Literatura “mantém seu potencial comunicativo também fora do contexto pragmático: no texto literário, uma introjeção de referências contextuais ocorrem, de forma que o leitor possa deduzi-los a partir do próprio texto” (1979b:35) (Nöth, 1990, p. 350, tradução nossa). 

Literariedade é, então, a estrutura de significação, uma linguagem especial que dá o estatuto de polissemia à literatura. Já discutimos alguns destes elementos (rima, figuras de linguagem…) e o que eles podem significar no contexto de uma obra literária. Em outras palavras, qualquer pessoa pode escrever uma estória, mas nem todos conseguirão alcançar a atenção do leitor; isto dependeria de como a estória está sendo contada. Se utilizarmos literariedade, então teremos muito mais do que uma simples estória: teremos arte.

É importante termos em mente que o estatuto de literature pode mudar com o passer do tempo, assim como aponta Nöth:

 Literatura não é uma categoria estática. O predicado da literariedade caracteriza avaliação estética, e tais avaliações podem mudar de acordo com as culturas e épocas. Originalmente, o que não era texto literário (ex. religioso) adquiriu, após séculos, o estatuto de literatura, ao mesmo tempo em que textos originalmente literários podem sofrer perda de sua literariedade (Lotman 1970: 287-88). Mudanças especialmente radicais na evolução da literatura têm sido demonstradas pela literatura moderna de vanguarda, em que, entre elas, receitas culinárias têm sido apontadas com estatuto de literariedade (cf. Nöth 1977a; 1978a) […] (p. 353, tradução nossa).

Nós aprendemos que não é fácil explicar o que de fato literature é. Sabemos como certeza de que é uma das coisas mais importantes para a maioria das pessoas. Sobre isso, Sutherland tem sábias palavras:

Para a maioria das pessoas mais atenciosas, literatura desempenhará um papel muito importante em suas vidas. Nós aprendemos muitas coisas em casa, na escola, com os amigos e da boca de pessoas mais sábias e inteligentes do que nós mesmos. Mas a maioria das coisas mais valiosas que sabemos vem da literatura que lemos. Se nós lemos bem, nos encontraremos em uma relação de conversa com as mentes mais criativas de nosso tempo e do passado. Tempo gasto lendo literatura é sempre tempo bem gasto. Não deixe ninguém te dizer o contrário (Sutherland, 2013, p. 2, tradução nossa). 

Vamos voltar àquelas duas questões do início: quem são as pessoas que pensam que alguns livros, peças de teatro, poemas, etc., são importantes e bons? E por que eles pensam que são importantes e bons? Bem, genericamente, qualquer pessoa pode dizer que são importantes e bons – como já dissemos, é uma simples questão de opinião. No entanto, quando estamos discutindo literatura, todos nós também podemos dizê-lo, contanto que nós possuímos alguma bagagem teórica que suporte nossas opiniões, como a semiótica, pois devemos ter uma razão para dizer que uma obra é, de fato, literária. Devemos encontrar a literariedade, e as teorias literárias nos ajudarão a encontra-la.

Esperamos que este pequeno “bate-papo” sobre a arte da palavra tenha sido, para você, útil e clara. Nosso próximo artigo discutirá elementos da literatura, assim como suas origens, períodos, princípios estéticos e assim por diante. Antes disso, você poderia nos dizer qual foi a lição de vida que você aprendeu através da literatura?   

 

Notas:

  1. 1. extraído de: http://www.citador.pt/poemas/amor-e-um-fogo-que-arde-sem-se-ver-luis-vaz-de-camoes

 

Bibliografia:

Nöth, Winfried. (1990). Handbook of Semiotics. Indiana University Press: Bloomington and Indianapolis.

Quirk, Lord. (2006). Longman Dictionary of Contemporary English. Pearson Longman: England.

Sartre, Jean-Paul. (1988). What is Literature? And Other Essays. Harvard University Press.

Sutherland, John. (2013). A Little History About Literature. Yale University Press.

 

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